Cuidando do cipó

Por Virgilio Bomfim, Igor Antunes e Anya Ermakova

Práticas de conservação da ayahuasca entre povos indígenas e instituições religiosas no Brasil

Em todo o mundo, a expansão da ayahuasca trouxe renovada atenção à sustentabilidade da Banisteriopsis caapi e da Psychotria viridis. Enquanto igrejas ayahuasqueiras do Santo Daime e União do Vegetal há muito enfatizam a estreita relação com a natureza por meio do manejo florestal, reflorestamento e iniciativas de cultivo, os povos indígenas do Acre, incluindo os Yawanawa, Noke Koi e Puyanawa, começaram a transitar da dependência de plantas coletadas na natureza para projetos de cultivo organizados que respondem à crescente demanda local e global. Esse conjunto de movimentos demonstra que as comunidades indígenas e religiosas estão negociando ativamente as pressões ambientais, adotando práticas de cultivo e construindo respostas institucionais para garantir a disponibilidade das plantas a longo prazo. Ao mesmo tempo, o crescente interesse internacional, o aumento do número de retiros e a mercantilização regional criam condições em que a sustentabilidade não pode ser dada como certa.

COMUNIDADES INDÍGENAS E RELIGIOSAS ESTÃO NEGOCIANDO ATIVAMENTE AS PRESSÕES AMBIENTAIS, ADOTANDO PRÁTICAS DE CULTIVO E CONSTRUINDO RESPOSTAS INSTITUCIONAIS PARA GARANTIR A DISPONIBILIDADE DAS PLANTAS A LONGO PRAZO.

Germinação espontânea de sementes de caapi.

Respostas indígenas: Caminhos para a sustentabilidade

As breves considerações que farei são, em grande parte, resultado da minha longa afiliação à Sociedade Panteísta Ayahuasca (SPA) 2008-2024, um grupo autossustentável localizado no nordeste do Brasil, e ao Santo Daime, instituições onde coordenei ou participei de feitios, trabalhos comunitários de propagação de plantas — e do meu trabalho como antropólogo com Varinawa Noke Koi (2018-2025), por meio de projetos socioambientais, enquanto, paralelamente, fomentava a autossustentabilidade de uma associação e centro recém-fundados dedicados à organização de festivais e retiros. Por último, mas não menos importante, da minha experiência e documentação como botânico em campo.

Durante viagens recentes, observei uma mudança em comparação a 2014. Naquela época, a maioria dos povos indígenas dependia de plantas silvestres do próprio território e de produtores locais de ayahuasca que também utilizavam cipós silvestres. Hoje, é evidente que as comunidades do Acre estão tomando medidas proativas para cultivar as plantas. Para os Yawanawa e Noke Koi, essas iniciativas representam, na verdade, uma mudança crítica e necessária, deixando de depender de plantas colhidas na natureza para estabelecer práticas de cultivo que possam atender à demanda local e global sem esgotar os recursos naturais.

Um exemplo notável é o povo Yawanawa, no Acre. Em 2016, durante quatro semanas, acompanhei Nixiwaka Yawanawa em uma viagem pelo rio Gregório, e fomos a um local agora conhecido como Aldeia Sagrada. Ele me mostrou um lugar com ocorrência natural de kawa e mencionou seus planos de se mudar para lá e projetar um jardim para cultivar todos os tipos de plantas nativas da cultura Yawanawa. Eles deram continuidade ao projeto, começando com a criação de uma área de viveiro para as plantas. Agora, é um projeto bem-sucedido, com muitas plantas necessárias para atender à demanda e que promove o envolvimento da comunidade no cuidado e aprendizado sobre elas.

Da mesma forma, os Puyanawa começaram a cultivar as plantas utilizadas na preparação da ayahuasca. Em 2018, durante a Conferência Indígena sobre Ayahuasca, Puwe descreveu uma aliança intercomunitária na qual os líderes Ashaninka Benki e Francisco Piyãko apoiaram a introdução e o desenvolvimento desses cultivares entre os Puyanawa. Tanto Puwe quanto o chefe Joel Puyanawa enfatizaram que essa iniciativa visa não apenas fortalecer a autossuficiência da comunidade, mas também atender à crescente demanda gerada pelo interesse cada vez maior de visitantes estrangeiros.

Essas iniciativas já estão prosperando, embora as plantas precisem de vários anos para crescer antes de poderem ser colhidas; um passo determinante para reduzir a dependência de plantas colhidas na natureza foi dado. Também em 2019, com os Varinawa, durante a fundação de nossa associação e a inauguração da nova aldeia, parte de nosso projeto incluiu o cultivo de kawa e uni em áreas próximas de onde o kupixawa e as casas de acolhimento foram posteriormente construídos. Todas essas iniciativas foram impulsionadas pelo reconhecimento de que a crescente demanda por ayahuasca exige novas abordagens para garantir a disponibilidade das plantas. Agora, em 2025, a fundação que iniciamos durante meu doutorado aprovou um terceiro projeto no qual a Associação Sociocultural Varinawa reafirma seu compromisso coletivo com a sustentabilidade e a conservação do caapi. Este projeto atual envolve o cultivo de mil plantas de uni (caapi) e kawa (viridis) nos arredores do centro cultural construído entre 2019 e 2025. Contamos com o apoio da igreja Santo Daime de Rio Croa. No momento, todo o caapi já foi plantado, “garantindo que as futuras gerações tenham acesso à nossa medicina sagrada, porque nossa Associação também trabalha para a geração futura, para o bem-estar da comunidade”, disse Metsá Varinawa.

Metsá Varinawa criando um viveiro para kawa.

Uma iniciativa semelhante está sendo realizada por Kamarati Kamanawa ao longo do Rio Gregório, onde algumas famílias desenvolvem sistemas agroflorestais ao redor de suas aldeias. Devido à crescente demanda, elas estão expandindo suas áreas de cultivo. Assim como outros interlocutores da pesquisa, Kamarati, responsável por festivais e viagens ao exterior, relata uma crescente escassez local dessas espécies nativas e enfatiza a necessidade de garantir seu cultivo e uso sustentável. Como explicou: “Veja bem, as pessoas estão tirando muito da floresta em todos os lugares. Outro dia mesmo encontrei alguém do Rio Liberdade que me disse ter encontrado três cipós; ele já tinha vendido um e estava tentando me vender outro”. Kamarati também mencionou um conhecido produtor de ayahuasca, que produz milhares de litros da bebida a partir de plantas silvestres, o que, segundo relatos de moradores locais, contribui para a dificuldade de encontrar cipós naquela região.

Além dos esforços das comunidades indígenas, instituições religiosas ayahuasqueiras como Santo Daime, União do Vegetal e alguns outros grupos, cultivam suas próprias plantas, não tendo a necessidade de depender de populações selvagens. No entanto, embora esses esforços sejam suficientes para essas comunidades, eles não são planejados nem suficientes para atender a uma demanda global astronômica que surge no movimento contemporâneo da Nova Era. De 2014 a 2025, o número de festivais e retiros que ocorrem em territórios indígenas e em outros lugares aumentou significativamente.

É dentro desse panorama mais amplo que as práticas ambientais de grupos do Santo Daime e União do Vegetal ganham relevância, pois fornecem uma importante estrutura comparativa para entender como diferentes grupos se envolvem com o manejo florestal e a sustentabilidade para atender às suas próprias necessidades de manter e expandir suas práticas espirituais.

Conheça mais sobre a Iniciativa de Reciprocidade Indígena das Américas

A sustentabilidade nas organizações do Santo Daime

Para discutir a sustentabilidade dos grupos religiosos ayahuasqueiros no Brasil, observei principalmente as práticas de conservação e preservação ambiental em diferentes regiões do país, notando o comportamento e a adaptação de espécies vegetais a diferentes biomas e condições climáticas. É importante ressaltar que esses grupos desenvolvem uma relação próxima com a natureza. Esse vínculo estreito tem sido observado desde as origens dessas religiões, como a fundação da primeira comunidade Santo Daime, chamada “Alto Santo”, localizada na zona rural da cidade de Rio Branco, no Acre, que proporcionou desenvolvimento socioambiental para comunidades rurais na Amazônia, ao mesmo tempo em que preservava ecossistemas. Posteriormente, com a expansão dos grupos para outros estados e regiões do país, é possível observar como seu manejo territorial reflete na preservação das florestas. Além disso, observei também a adoção de técnicas conservacionistas no plantio e na colheita de plantas, e na produção da bebida. Assim, vejo conexões entre as práticas adotadas pelos membros dessas religiões e o movimento ambientalista, observando a sustentabilidade do fenômeno.

Em minha pesquisa, realizei trabalho de campo em três igrejas do Santo Daime localizadas no Norte, Sudeste e Sul do país. Os líderes dessas organizações, bem como seus membros, foram entrevistados enquanto participavam de eventos onde a ayahuasca é produzida e em rituais onde ela é consumida.

Para analisar a interface entre as religiões ayahuasqueiras e o ambientalismo, falarei primeiro sobre os ecossistemas presentes nas propriedades onde os grupos estão localizados. A preservação florestal é observada nas igrejas Santo Daime que visitei. A igreja localizada no estado de São Paulo tem cerca de 10 hectares e uma taxa de cobertura vegetal de 95%. A igreja localizada no estado do Paraná tem cerca de 16 hectares, com 14 hectares de mata nativa e 1 hectare formado por um sistema agroflorestal, resultando em 94% de cobertura vegetal. A igreja no estado do Acre também possui dois hectares de vegetação nativa. Isso mostra uma conexão entre a preservação de ecossistemas e a presença dos grupos nos territórios.

Arte de Mariom Luna.

Os grupos também trabalham para restaurar ecossistemas. Quando visitei a igreja de São Paulo, observei que a propriedade consistia em pastagens degradadas e áreas desmatadas utilizadas para a agricultura, mas com a mudança da igreja para aquele local, atividades de reflorestamento foram iniciadas, coordenadas pelo líder e pelos membros da igreja. Isso resultou em uma área de mata secundária onde agora é possível cultivar jagube e chacrona, contribuindo para a sustentabilidade desse grupo.

A expansão do uso da ayahuasca está gerando um maior consumo e, para atender a essa demanda, precisamos prestar atenção ao cultivo das espécies vegetais que a compõem. Observei como os grupos adotaram técnicas que garantem a conservação dessas espécies. Em termos de produção de mudas, isso é feito tanto por meio de sementes doadas pelas igrejas quanto por reprodução vegetativa. No caso do jagube, esse tipo de reprodução é feito por meio de estacas das ramas, enquanto para a chacrona podem ser usados tanto galhos quanto folhas maduras. Observei essas técnicas durante visitas às igrejas de Santo Daime.

A EXPANSÃO DO USO DA AYAHUASCA ESTÁ GERANDO UM MAIOR CONSUMO E, PARA ATENDER A ESSA DEMANDA, PRECISAMOS PRESTAR ATENÇÃO AO CULTIVO DAS ESPÉCIES VEGETAIS QUE A COMPÕEM.

Em relação ao cultivo final, é importante mencionar que essas espécies requerem certas características para o seu desenvolvimento adequado. O jagube precisa de uma árvore-suporte, enquanto a chacrona precisa de sombra. As florestas são, portanto, o melhor ambiente para o seu plantio. Em busca de condições ideais de cultivo, os grupos plantam jagube e chacrona em florestas secundárias (que são florestas resultantes da regeneração de uma área desmatada) ou em sistemas agroflorestais (que consistem no plantio de variedades agrícolas entre árvores frutíferas ou madeireiras, entre outras plantas, simulando uma floresta). Durante visitas a igrejas em São Paulo e no Acre, observei o cultivo de plantas em mata secundária, e na igreja do Paraná vi o cultivo dessas plantas em um sistema agroflorestal de um hectare, juntamente com produção de alimentos orgânicos. Portanto, vejo uma clara conexão entre os métodos e sistemas de cultivo de jagube e chacrona e a preservação das florestas nessas igrejas.

Esses grupos também adotam técnicas de colheita que permitem a regeneração dessas plantas. Em meu trabalho de campo, observei que o jagube é colhido deixando-se a raiz e parte das ramas, ou uma parte acima do solo que permita o rebrote. Após o corte, um dos membros sobe na árvore-suporte para desembaraçá-lo, tentando evitar danificar o jagube e a árvore, enquanto os outros o puxam para baixo. A chacrona é colhida de forma a preservar as folhas mais jovens localizadas nas pontas dos galhos, o que permite a renovação foliar.

Mudas de Banisteriopsis caapi.

É interessante destacar que coletei dados que mostram algumas dificuldades adaptativas dessas espécies em biomas diferentes da Amazônia, onde são nativas. Na região Norte — no bioma Amazônico — foi relatado que o período de colheita do jagube pode ser de cerca de cinco anos. No Nordeste, na Mata Atlântica, a Sociedade Panteísta Ayahuasca consegue colher a planta entre três e quatro anos, embora enfatizemos a necessidade de levar em consideração as condições ambientais específicas de crescimento. No Sudeste e Sul, também no bioma Mata Atlântica, foi relatado que o tempo de maturação para a colheita do jagube pode ser de cerca de oito a dez anos. A chacrona pode ser colhida em um período de cerca de três anos. Isso demonstra as dificuldades de adaptação das plantas a climas mais frios.

Membros da igreja de São Paulo também relataram que geadas ocorrem durante os períodos mais frios do ano, resultando em danos e perdas significativas para as plantas. O jagube acaba tendo seus galhos danificados, especialmente os mais finos, que podem secar e morrer. A chacrona também sofre danos em suas folhas superiores, que são mais expostas à geada; as folhas e os galhos secam e morrem. Após esses eventos, as plantas devem ser manejadas por meio da poda das partes danificadas para que a planta possa se recuperar.

Por outro lado, embora os membros das religiões ayahuasqueiras tenham contato próximo com a natureza, isso não nos impede de observar impactos ambientais negativos decorrentes de suas práticas. Durante minhas visitas às igrejas de Santo Daime, observei impactos negativos relacionados à adoção de técnicas inadequadas na coleta de plantas. Um membro da igreja em São Paulo relatou que, para colher um jagube que havia sido deixado sem manejo por muito tempo, foi necessário amarrar o cipó a um carro com uma corda, que, ao se mover, puxou a planta, causando danos tanto ao jagube quanto à árvore que a sustentava. Além disso, membros da organização no Acre afirmaram que há exploração excessiva de jagube e chacrona em seu habitat natural, impulsionada pela diversidade de grupos na região. Essa exploração, juntamente com a redução das florestas causada pelo avanço do desmatamento, tem contribuído para a diminuição da disponibilidade dessas espécies em florestas nativas.

Portanto, é possível compreender um panorama das práticas de conservação relacionadas à sustentabilidade desses grupos no país.

Considerações finais

O Banisteriopsis caapi não está inerentemente ameaçado de extinção, e sua biologia, capacidade regenerativa e cultivo em expansão sugerem resiliência quando manejado de forma responsável. No entanto, os relatos de escassez local no Acre, a pressão gerada pelo aumento de cerimônias e retiros, e a adoção desigual de técnicas de colheita sustentável demonstram que resiliência não equivale à disponibilidade permanente. Associações indígenas como os Yawanawa e Noke Koi responderam estabelecendo viveiros, sistemas agroflorestais e projetos de plantio em larga escala, enquanto grupos Santo Daime incorporaram preservação florestal, produção de mudas e técnicas de manejo conservacionistas em suas estruturas institucionais. Esses esforços fortalecem a sustentabilidade, mas também revelam que, sem a expansão contínua do cultivo, a crescente demanda global tende a exceder a capacidade das plantas colhidas na natureza. A sustentabilidade, portanto, floresce em estratégias coordenadas de cultivo, conservação e manejo responsável que possam atender à demanda, protegendo ao mesmo tempo as paisagens ecológicas e sociais em que essas plantas crescem.

A SUSTENTABILIDADE, PORTANTO, FLORESCE EM ESTRATÉGIAS COORDENADAS DE CULTIVO, CONSERVAÇÃO E MANEJO RESPONSÁVEL QUE POSSAM ATENDER À DEMANDA, PROTEGENDO AO MESMO TEMPO AS PAISAGENS ECOLÓGICAS E SOCIAIS EM QUE ESSAS PLANTAS CRESCEM.

Compre nosso mais novo design de camiseta! "Protecting Sacred Plants, Advancing Psychedelic Justice" (Em defesa das plantas sagradas, promovendo justiça psicodélica)

Capa de Pedro Mulinga.


Virgilio Bomfim

Virgilio Bomfim, PhD, é antropólogo e ex-investigador visitante da Universidade de St Andrews. Sua investigação se centra na etnohistória indígena, etnicidade, xamanismo e relações entre humanos e plantas; um etnobotânico descalço dedicado à conservação.

Igor Fernandes Antunes

Igor Fernandes Antunes é gestor ambiental, possui mestrado em Sustentabilidade e é doutorando em Ciências Ambientais.

Anya Ermakova

Anya Ermakova, Ph.D., é bióloga conservacionista e pesquisa a ecologia do peiote nos EUA com o Prof. Martin Terry. Ela faz parte do Conselho para a Proteção de Plantas Sagradas do Instituto Chacruna.

Previous
Previous

Maternidade daimista e ayahuasca: da gestação ao puerpério no contexto de uma religião global

Next
Next

O futuro da ayahuasca em disputa no Brasil