Cinco lições que aprendemos com a Psychedelic Culture 2026

Por: DoubleBlind

Frente do Brava Theater em São Francisco (CA).

Foto: DoubleBlind.

Fomos à conferência Psychedelic Culture, do Chacruna Institute, em São Francisco, e aqui está o que aprendemos.

O fim de semana do Bicycle Day em São Francisco parece uma espécie de 4 de Julho psicodélico, mas com muito menos nacionalismo e uma ênfase consideravelmente maior em comunidade, tradição e expansão intelectual. Neste último fim de semana, o Chacruna Institute realizou sua conferência anual, Psychedelic Culture, no Brava Theater, um dos últimos vestígios culturais do Mission District. O local foi apropriado para o evento, considerando que a cultura dos psicodélicos, tal como a conhecemos, também está passando por um processo de gentrificação impulsionado pela Big Pharma e pela busca insaciável do Ocidente por experiências místicas na tentativa de preencher o vazio de uma cultura espiritualmente falida em meio a uma crescente crise de saúde mental.

Discussões sobre as tensões entre preservação, extração, linhagem e mercantilização atravessaram grande parte da programação do fim de semana. Os painéis contaram com palestrantes do mundo todo, alguns dos quais viajaram das profundezas da Amazônia não apenas para representar suas culturas, mas também para transmitir mensagens em nome da floresta. O evento também trouxe discussões com contadores de histórias e criadores de conteúdos sobre como lidar com a censura nas plataformas de redes sociais, além de diversos especialistas que debateram como movimentos culturais, sociais e políticos estão remodelando ativamente o cenário psicodélico contemporâneo.

A Psychedelic Culture 2026 foi, em última instância, uma convergência bem-sucedida dos elementos fundamentais que compõem o coração e a alma dos movimentos modernos das medicinas da floresta e dos psicodélicos, sem reforçar a cultura neo-xamânica dos “tech bros”, que vem achatando essas tradições em algo consumível e descontextualizado. E considerando o quanto essa subcultura recebe atenção na mídia atualmente (graças a pessoas como Bryan Johnson e Joe Rogan), o fato de a programação não ter sido centrada em longevidade e otimização foi um respiro de ar fresco e uma vitória para a cultura dos psicodélicos. Com isso, aqui estão nossos cinco principais aprendizados do fim de semana.

Representação indígena forte

A Psychedelic Culture deixou cristalino que a representação indígena não é apenas algo que produtores de eventos “deveriam” fazer, ela é absolutamente obrigatória. E não se trata de convidar apenas uma ou duas pessoas para falar sobre uma ampla variedade de temas. Uma conferência deve contar com muitos representantes indígenas oferecendo um espectro diverso de perspectivas. Afinal, as culturas indígenas contêm uma profunda diversidade de pensamento; elas não são monolíticas - algo que públicos ocidentais frequentemente deixam de compreender.

Além disso, uma demanda recorrente das comunidades indígenas é a consulta significativa e um lugar à mesa. Ouvimos isso constantemente em relação à construção de marcos regulatórios. E, em grande parte, a indústria psicodélica falhou em oferecer isso de maneira substancial. No entanto, outra forma de garantir esse “lugar à mesa” é oferecendo espaço de fala em conferências, como a Psychedelic Culture fez.

Não existe atalho para se tornar um trabalhador da medicina

A maestra Edelin Lopez Sanchez, curandeira Shipibo-Konibo da Amazônia peruana, afirmou em um painel na sexta-feira que tornar-se uma curandeira é um processo longo e rigoroso, enraizado na linhagem - algo que não pode ser acelerado artificialmente. Embora hoje seja comum que ocidentais façam dietas por dois ou três meses e sintam-se prontos para trabalhar com ayahuasca, ela explicou que, tradicionalmente, esse processo levava anos e, ainda assim, “nunca chegamos totalmente lá; continuamos aprendendo”.

Ela ilustrou isso contando uma história sobre sua família, muitos dos quais também eram curandeiros. Sua mãe começou a treinar ainda criança, realizando dietas sob a orientação de seu avô, que a guiava de forma profundamente intencional e amorosa. Com o passar do tempo, conforme avançava em seu treinamento, ela recebeu uma de suas primeiras tarefas de cura: consolar uma criança de cinco anos que gritava e chorava sem conseguir descansar devido a um sofrimento que a acometia. A mãe de Edelin trabalhou com a criança e conseguiu acalmá-la e curá-la, quando ninguém mais havia conseguido. Esse momento confirmou sua capacidade e marcou sua transição para ser reconhecida como curandeira dentro da comunidade.

A implicação aqui é difícil de ignorar. A ideia de que alguém pode “acelerar” o processo de se tornar curandeiro, ou que após apenas seis meses de estudo estaria qualificado para isso, contradiz diretamente os tempos tradicionais praticados por essas culturas.

Conhecimento indígena não pode ser patentado

Rasu Yawanawá, da aldeia Mutum e curador do povo Yawanawá da Amazônia brasileira, afirmou em um painel de sexta-feira que a ayahuasca e outras medicinas da floresta - assim como os conhecimentos relacionados a elas - não podem ser possuídas, patenteadas ou reivindicadas como propriedade. Ele enfatizou que essas medicinas existem muito além do universo do dinheiro e do capitalismo, atuando no nível do coração e do espírito, o que exige profundo respeito em relação à forma como são utilizadas. Também afirmou que nem todas as pessoas estão destinadas a trabalhar com ayahuasca e medicinas vegetais, e que existe uma responsabilidade em abordá-las da maneira correta. Além disso, destacou que os povos indígenas continuam sendo julgados, rejeitados e marginalizados por deterem esse conhecimento, mesmo enquanto o mundo volta-se cada vez mais para essas medicinas.

Houve um tempo em que mulheres não podiam ser trabalhadoras da medicina

A maestra Laura Lopez De Fernandez, trabalhadora da medicina Shipibo-Konibo da Amazônia peruana, compartilhou que, dentro de sua linhagem, o conhecimento de cura era tradicionalmente transmitido por homens. Em sua família, isso significava seus tios, avô e bisavô. As mulheres, por outro lado, eram esperadas apenas em funções de apoio, como limpar os espaços com mapacho (tabaco sagrado) enquanto a medicina era servida. Foi somente pela insistência de seu bisavô que sua mãe pôde treinar, apesar da resistência do próprio pai, que questionava por que uma menina deveria fazer dietas. Foi a partir desse momento, porém, que mulheres começaram a passar pelos treinamentos para assumir papéis de cura na tradição Shipibo-Konibo.

Se você constrói nas redes sociais, seu trabalho não é seu

Mikaela de la Myco, educadora psicodélica e organizadora de base, deixou claro em seu painel de sábado que, embora as redes sociais tenham sido essenciais para compartilhar informações, organizar movimentos e alcançar novos públicos, elas são, no fim das contas, uma base instável para construir algo sólido e duradouro. Após ter sido removida do Instagram, ela lamentou como anos de trabalho podem desaparecer da noite para o dia, especialmente em um espaço já marcado por censura e algoritmos opressivos. Ela explicou que essas plataformas das quais tantos de nós dependemos podem simplesmente removê-lo sem aviso - e não devolverão seu trabalho - tornando fundamental construir espaços fora delas, especialmente listas de e-mail, relações diretas e outras formas de infraestrutura.

Compre nosso mais novo design de camiseta!

"Protecting Sacred Plants, Advancing Psychedelic Justice"

(Em defesa das plantas sagradas, promovendo justiça psicodélica)

Nota: Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site DoubleBlind.

Tradução: Paulina Valamiel.


Previous
Previous

Protestos destacando o conflito em Gaza causam tensão na Psychedelic Culture 2026

Next
Next

Os psicodélicos estão em ascensão, mas quem está ficando de fora?