A ciência que nasce do encantamento:Jurema e a encruzilhada dos saberes
Por Luiz Assunção
Resenha de: LEITE, Marcelo. The Psychedelic Science of the Jurema Tree. Springer Nature Switzerland, 2026. 202 p. (Copernicus Books). DOI: 10.1007/978-3-032-22705-8.
Nos últimos anos, o Catimbó-Jurema, a Jurema Sagrada ou simplesmente Jurema, vem conquistando crescente visibilidade nos campos da pesquisa acadêmica e no imaginário de um público mais amplo. Esse interesse não se restringe à sua dimensão religiosa. A Jurema tem se constituído também como um território de interrogações para diferentes áreas do conhecimento, mobilizando questões relativas à história, à antropologia, à farmacologia, à psicologia, à medicina e aos estudos sobre consciência e estados alterados de percepção. Há, contudo, algo que antecede e, ao mesmo tempo, excede o interesse científico: a Jurema constitui um universo complexo de saberes, práticas, memórias e relações que, durante séculos, permaneceu ancorado sobretudo nos territórios indígenas e nas comunidades tradicionais de terreiro, como procurei discorrer em O reino dos mestres (Assunção, 2006). Mais do que objeto de investigação, entretanto, a Jurema já constituía ciência para aqueles que, há gerações, aprenderam a conhecê-la, cultuá-la, utilizá-la e estabelecer com ela relações de conhecimento, cuidado e pertencimento.
O que se observa mais recentemente é um deslocamento desse universo para outros circuitos de circulação. A Jurema ultrapassou as fronteiras dos espaços nos quais historicamente foi praticada e transmitida, alcançando livros, universidades, meios de comunicação e redes digitais. A veiculação midiática da Jurema na série Êxtase Ritos Sagrados, exibida pelo programa Fantástico (TV Globo, 2005), constitui um dos exemplos mais significativo desse contexto. A prática religiosa tornou-se, desse modo, mais conhecida e acessível a públicos diversos, mas também passou a estar mais sujeita a novas interpretações, formas de apropriação e disputas em torno de seus significados e modos de representação.
É nesse cenário que se inscreve a publicação de Marcelo Leite, The Psychedelic Science of the Jurema Tree (Springer Nature, 2026), originalmente publicada no Brasil sob o título A ciência encantada de Jurema (São Paulo: Fósforo, 2025). A obra participa de um momento particularmente significativo, no qual os saberes relacionados à Jurema passam a dialogar de maneira mais explícita com a ciência contemporânea, sobretudo com as pesquisas sobre substâncias psicoativas, estados alterados de consciência e possibilidades terapêuticas dos psicodélicos. O movimento do livro, portanto, é duplo. De um lado, acompanha a ciência em sua tentativa de compreender os efeitos e as possibilidades terapêuticas das substâncias psicodélicas. De outro, acompanha a Jurema em sua longa trajetória histórica, religiosa e cultural. Esses dois movimentos convergem, mas não se confundem. Penso que é justamente nessa diferença que reside a riqueza da obra.
Não é casual que a narrativa começa, significativamente, no território da planta. O relato da coleta da jurema-preta (Mimosa tenuiflora), em uma fazenda situada no semiárido nordestino brasileiro, acompanhado por um dos pesquisadores da equipe do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), envolvida em experimentos com DMT (N,N-dimetiltriptamina), substância encontrada na jurema, inalado para o tratamento da depressão, funciona como uma espécie de portal narrativo. A entrada no mundo da Jurema não se dá, portanto, pela abstração do conceito, mas pelo contato com a matéria viva, com o território, com a planta e com as pessoas que participam de sua história. É desse encontro que se desdobra a viagem empreendida pelo autor por diferentes territórios juremeiros, incluindo Alhandra, na Paraíba, e localidades do Rio Grande do Norte, Pernambuco, Bahia, Minas Gerais e São Paulo, combinando entrevistas, observação, pesquisa histórica e experiências pessoais.
Ao longo desse percurso, ciência e experiência, bibliografia e oralidade, laboratório e terreiro, pesquisadores e comunidades indígenas deixam de ocupar lugares rigidamente separados. O livro é construído justamente nesses entrecruzamentos. Os encontros com pesquisadores, comunidades indígenas e religiosos, somados às referências bibliográficas mobilizadas pelo autor, formam uma cartografia múltipla da Jurema, na qual diferentes temporalidades e regimes de conhecimento se sobrepõem. A história da planta encontra a história dos povos que dela fizeram e fazem uso; a pesquisa científica contemporânea encontra práticas religiosas transmitidas entre gerações; e a experiência individual do autor se articula a processos históricos mais amplos de resistência.
É também por essa via que a Jurema pode ser compreendida como uma história de resistência. Sua trajetória não pode ser dissociada dos processos coloniais de violência, expropriação territorial, perseguição religiosa e desqualificação dos saberes indígenas e afro-brasileiros. Falar de juremeiras e juremeiros, é falar também de sujeitos e comunidades que preservaram conhecimentos em condições históricas adversas, fazendo da transmissão do saber uma prática de permanência e enfrentamento. A resistência não aparece apenas como reação a uma violência exterior; ela se manifesta na própria capacidade de manter vivos determinados modos de conhecer, cultuar, narrar e estabelecer relações com a planta, com o território, com os ancestrais e com o mundo.
Essa perspectiva atravessa os diferentes temas que organizam o livro: a origem e a história da Jurema e do Catimbó; as experiências de resistência indígena; as trajetórias de juremeiras e juremeiros; os encontros e atravessamentos entre Catimbó e Umbanda; as experiências contemporâneas com a juremahuasca e, finalmente, as novas formas de expressão de um neoxamanismo cosmopolítico. Mais do que uma sequência temática, esses capítulos parecem configurar diferentes entradas em um mesmo universo, no qual tradição e contemporaneidade não se excluem, mas se tensionam, se transformam e, por vezes, se reinventam mutuamente.
Não é demais lembrar que a Jurema se refere a um conjunto de tradições religiosas de origem indígena que se desenvolveu principalmente em parte da região Nordeste do Brasil. Ela está profundamente relacionada aos conhecimentos e às práticas espirituais de povos indígenas da região e, ao longo de sua história, incorporou elementos de diferentes tradições culturais e religiosas, especialmente africanas e do catolicismo popular, compondo um conjunto que inclui diversas linhas do fazer Jurema.
A planta jurema possui importância simbólica, espiritual e ritual. Ela é compreendida como elemento de ligação com o mundo espiritual e com os chamados Mestres e Mestras da Jurema, entidades ou espíritos que ocupam papel importante nas práticas religiosas. Também aparecem figuras conhecidas como Caboclos, além de outras entidades cuja presença depende da tradição praticada. Os rituais podem envolver cantos, rezas, instrumentos musicais, bebidas e elementos vegetais, sempre de acordo com os costumes de cada comunidade. São muitos os mistérios existentes na Jurema que a ciência não consegue imaginar ou como afirma um dos interlocutores de Leite: são tanto a bebida quanto o ato ritualístico que te conduzem.
O livro de Marcelo Leite atravessa uma espécie de linha histórica, como venho procurando destacar, escrita em relatos detalhados sobre a Jurema e marcados pelo encontro histórico entre tradições indígenas, africanas e outras formas de religiosidade brasileira, em que a “reverência perante os mistérios”, o racionalismo do autor não consegue dar conta. Todavia, sem perder afetos e razão, o autor nos conduz a questões atuais, ao tratar da Jurema no contexto do neoxamanismo cosmopolita, reinterpretada em ambientes urbanos, muitas vezes em diálogo com ayahuasca, espiritualidades alternativas e discursos de autoconhecimento.
Uma dessas práticas, mais conhecida por juremahuasca é uma preparação de caráter ritual e espiritual que surgiu a partir do encontro entre tradições relacionadas à Jurema e conhecimentos associados à ayahuasca. Sua origem está ligada principalmente a movimentos religiosos e espirituais mais recentes, nos quais diferentes grupos passaram a experimentar aproximações entre a tradição da Jurema e o uso ritual de bebidas consideradas enteógenas, como bem relata e documenta o autor. Tenho acompanhado o percurso de duas lideranças, Mãe Kelly e Pai José Roberto, vindos da tradição umbandista que ao fundarem o C.E.U. das Sagradas Medicinas (@ceu_sagradasmedicinas), no bairro Bom Pastor, Natal, reforçam suas experiências na Jurema com os conhecimentos da ayahuasca, em especial no atendimento daqueles que estão em busca de transcendência e alívio, indicando que não existe uma única fórmula de ritualizar a experiência, ela é tecida a partir de vivências muito particulares.
Do ponto de vista histórico e antropológico, a Juremahuasca pode ser compreendida como parte de um processo maior de transformação e diálogo entre tradições religiosas brasileiras. Ela demonstra como práticas espirituais podem se transformar ao longo do tempo, criando formas de expressão sem que isso necessariamente represente o desaparecimento das tradições mais antigas. Aqui remeto particularmente ao encontro do Catimbó-Jurema com a umbanda, no contexto dos anos de 1950/60, no Nordeste brasileiro, campo de minhas pesquisas. Perseguida pelas forças repressivas da época, a saída é praticá-la de forma escondida, cantado baixo, sem tambor. A disseminação da umbanda como modelo de organização religiosa em federações, amplamente incentivada pela política ideológica do estado brasileiro da época, possibilita a inserção e manutenção de diferentes tradições, como o Catimbó-Jurema, em que juremeiros e umbandistas sabem exatamente quando começa e termina cada uma de suas práticas ritualísticas. Esses movimentos de circulação e encontros continuam acontecendo, como o contemporâneo trânsito de religiosos da Jurema em direção a práticas afro-brasileiras na região Sudeste do país.
O neoxamanismo é um fenômeno relativamente recente que reúne elementos de diferentes tradições indígenas, espiritualidades alternativas, práticas meditativas e discursos contemporâneos sobre expansão da consciência. A relação entre a Jurema e o neoxamanismo cosmopolita pode ser compreendida sobretudo a partir de processos de apropriação, ressignificação e intercâmbio religioso, e não como uma relação de identidade entre os dois fenômenos. A Jurema é apresentada como uma tradição de conhecimento espiritual de matriz indígena, especialmente por meio de conceitos como a árvore/planta sagrada, os Mestres e Mestras, os encantados, os mundos espirituais e os rituais de cura. Entretanto, quando esses elementos são retirados de seus contextos históricos e comunitários e reinterpretados para atender às expectativas de públicos urbanos e transnacionais, eles podem adquirir novos sentidos e funções, distanciando-se das formas pelas quais são vivenciados e transmitidos pelas comunidades de origem.
É nesse ponto que a abordagem da ciência encantada proposta pelo livro acende um importante alerta acerca dos processos de transmissão e circulação desses conhecimentos. A discussão envolve questões fundamentais, como a relação estabelecida com as comunidades de origem, o respeito aos contextos culturais nos quais esses saberes foram produzidos e preservados, o reconhecimento das fontes e dos sujeitos indígenas e os limites éticos da circulação de conhecimentos considerados sagrados. Também se torna necessário problematizar situações em que elementos pertencentes a tradições específicas são deslocados de seus contextos e transformados em produtos, serviços ou experiências de consumo.
Penso que seja esse o maior mérito de The Psychedelic Science of the Jurema Tree: trazer ao público a necessidade de pensar um diálogo mais horizontal entre saberes, na qual diferentes formas de conhecimento possam se encontrar sem que o encontro implique necessariamente a eliminação de uma delas. Não se trata de colocar ciência e tradição no mesmo plano, mas de reconhecer que a ciência moderna não é a única forma historicamente produzida de interrogar o mundo.
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"10 years of Chacruna Institute for Psychedelic Plant Medicines"
Capa de Mulinga.
Luiz Assunção
Antropólogo. Doutor em Ciências Sociais (Antropologia) pela PUC/São Paulo. Professor Titular do Departamento de Antropologia e Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Membro da Associação Brasileira de Antropologia. Investigador Visitante no CRIA (UMinho, Portugal). Trabalho de campo com as comunidades de terreiro de Natal e Sertão nordestino. Pesquisador com experiência nos seguintes temas: religiões afro-indígenas brasileiras, memória, oralidade, patrimônio cultural, arquivos e museus.