Reciprocidade indígena para além da romantização

A maioria das pessoas no movimento psicodélico nunca conheceu uma liderança mazateca, mas ainda assim fala com segurança sobre aquilo de que a minha comunidade precisa. Quero mudar essa conversa.

Sou sociólogo e historiador mazateco, do Barrio de la Cruz, em Huautla de Jiménez, Oaxaca. Coordeno a Iniciativa de Reciprocidade Indígena das Américas (IRI), um programa do Chacruna Institute. A IRI é um programa pioneiro que estabelece parcerias com comunidades indígenas de diferentes regiões das Américas, apoiando iniciativas em seus territórios que buscam fortalecer as bioculturas e os diversos elementos que as sustentam (Boege, 2008). Esses projetos são conduzidos pelos próprios povos indígenas, orientados por suas próprias prioridades, necessidades e pelo princípio da autodeterminação.

Nosso compromisso com a reciprocidade, a educação e a colaboração orienta tudo o que fazemos. Meu trabalho se situa, portanto, na interseção de dois mundos que raramente se compreendem: o movimento psicodélico global e os territórios indígenas que ele afirma honrar.

Romantizar-nos esconde nossas lutas reais

Há setenta anos, Huautla de Jiménez é uma referência para qualquer pessoa interessada nos cogumelos sagrados e em María Sabina (Chacruna Institute, s.d.). Essa história é longa, e é urgente dizer algo de forma clara. O movimento psicodélico global e a ciência psicodélica existem porque se baseiam em conhecimentos fornecidos pelos povos indígenas, voluntariamente ou não.

Pesquisadores e acadêmicos desempenharam um papel determinante nesse processo. Eles legitimaram suas próprias narrativas por meio da ciência e, muitas vezes, a partir de uma posição de superioridade racial, econômica e cultural. Apropriar-se das narrativas sobre os povos indígenas e suas plantas sagradas é uma das expressões mais claras do ego que prevalece atualmente.

A acadêmica Linda Tuhiwai Smith demonstrou como a própria pesquisa ocidental se tornou uma ferramenta de colonização, extraindo conhecimentos dos povos indígenas sem consentimento ou benefício para essas comunidades (Smith, 2012). Vejo esse mesmo padrão se reproduzir atualmente.

O filósofo Enrique Dussel argumentou que a modernidade não começou com Descartes pensando na Europa. Ela começou em 1492, com a conquista das Américas. Dussel chamou isso de “eu conquistador”, a lógica que permitiu à Europa dominar e extrair das terras que colonizou (Dussel, 1995). Penso que essa lógica é o que moldou muitas áreas do campo psicodélico. Isso levanta uma questão: o chamado para “conectar” a ciência psicodélica aos conhecimentos tradicionais não seria, ele próprio, parte dessa narrativa romântica? Ambos os termos tendem a ser reduzidos a categorias organizadas e delimitadas, prontas para serem combinadas - muitas vezes com um tom messiânico, apresentados como uma mudança de paradigma ou como uma nova ciência da consciência.

O chamado para “conectar” a ciência psicodélica aos conhecimentos tradicionais não seria, ele próprio, parte dessa narrativa romântica? Ambos os termos tendem a ser reduzidos a categorias organizadas e delimitadas, prontas para serem combinadas - muitas vezes com um tom messiânico, apresentados como uma mudança de paradigma ou como uma nova ciência da consciência.

Neste momento, há tentativas concretas de apropriação cultural. Pessoas estão legitimando afirmações sobre plantas sagradas que as próprias comunidades indígenas não reconhecem. Práticas neocoloniais se intensificam quando se revestem de uma linguagem científica, acadêmica e espiritual.

Os povos indígenas continuam oferecendo seus conhecimentos para a cura de pessoas de fora de suas comunidades, mesmo em meio a essa violência. Mas faço um convite aos praticantes ocidentais para que questionem a si mesmos. De onde vem, de fato, a doença? É justo acreditar que uma dose heroica de uma planta sagrada pode curar tudo? É importante observar a quase ausência de discussões sobre classe social no campo psicodélico e sobre como relações de exploração sob o capitalismo neoliberal contribuem sistematicamente para problemas como depressão e ansiedade.

É importante observar a quase ausência de discussões sobre classe social no campo psicodélico e sobre como relações de exploração sob o capitalismo neoliberal contribuem sistematicamente para problemas como depressão e ansiedade.

Precisamos analisar as condições estruturais que produzem o sofrimento psicoemocional e espiritual no mundo ocidental. As pessoas se concentram apenas no sofrimento em si, em vez de olhar para suas origens e, assim, infelizmente, as plantas sagradas acabam sendo utilizadas apenas como paliativos. É essencial abordar a justiça social no campo dos psicodélicos.

Um universo para além da psilocibina

A tradição mazateca é ancestral e complexa. É um universo de conhecimentos sagrados, e os Cogumelos Sagrados - os cogumelos que contêm psilocibina - são apenas uma parte dele. A ciência ocidental reduziu a biocultura mazateca a uma única molécula e a uma narrativa sensacionalista sobre sua descoberta. Essa dívida histórica também é uma ferida aberta nas montanhas mazatecas.

Muitas pessoas indígenas sequer sabem o que é “o movimento psicodélico”, e não tenho certeza de que precisem saber. A maioria dos povos indígenas está concentrada em atender às necessidades básicas. Lutam por alimentação, moradia digna e pela proteção de suas famílias e de seus territórios. É essa luta pela vida que permite que suas tradições e culturas continuem existindo.

Nesse sentido, preservar e transmitir conhecimentos não é um projeto. É a vida cotidiana. É difícil insistir que as prioridades indígenas deveriam incluir “ter um papel” na cena psicodélica quando a própria sobrevivência é a prioridade.

Rompendo com a narrativa messiânica

Acreditar que os povos indígenas e as plantas sagradas vão “salvar a humanidade” é irresponsável. É irresponsável justamente porque, neste momento, enfrentamos lutas urgentes em nossos próprios territórios. Algumas narrativas brancas afirmam que os povos indígenas são ricos em espiritualidade e que, por isso, salvarão a humanidade, mas isso nos impede de enxergar as questões históricas que atravessam nossos territórios.

Acreditar que os povos indígenas e as plantas sagradas vão “salvar a humanidade” é irresponsável. É irresponsável justamente porque, neste momento, enfrentamos lutas urgentes em nossos próprios territórios. Algumas narrativas brancas afirmam que os povos indígenas são ricos em espiritualidade e que, por isso, salvarão a humanidade, mas isso nos impede de enxergar as questões históricas que atravessam nossos territórios.

Consideremos a ordem executiva do presidente Trump, em 2026, que incentiva pesquisas federais sobre a ibogaína, juntamente com um investimento de cinquenta milhões de dólares em pesquisas psicodélicas em nível estadual (Cohen & Marks, 2026). Acontecimentos como esse refletem processos coloniais. Eles não trazem nenhum benefício direto aos povos indígenas e aos territórios de onde essas plantas e conhecimentos se originam. Esses processos intensificam a violência contra as plantas sagradas, reduzindo-as a substâncias que supostamente irão curar os problemas do mundo moderno sem enfrentar o problema real.

É necessário falar sobre essas questões desconfortáveis. Essa é a única maneira de romper com as narrativas messiânicas e salvacionistas no campo psicodélico. A reciprocidade não pode ser construída sobre o romantismo. Ela precisa estar baseada em uma análise honesta das relações de poder presentes na cena psicodélica e daquelas que existem nos territórios indígenas.

A reciprocidade não pode ser construída sobre o romantismo. Ela precisa estar baseada em uma análise honesta das relações de poder presentes na cena psicodélica e daquelas que existem nos territórios indígenas.

Conheça a Iniciativa de Reciprocidade Indígena das Américas

Como a reciprocidade se concretiza na prática

A reciprocidade não é uma ideia fixa. Como nos lembram Eve Tuck e K. Wayne Yang, “a descolonização não é uma metáfora para outras coisas que queremos fazer para melhorar nossas sociedades” (Tuck & Yang, 2012). Trata-se de um processo contínuo, que precisa ir além da teoria acadêmica. O Chacruna Institute busca promover uma mudança de paradigma no campo psicodélico, integrando comunidades historicamente marginalizadas e questionando as narrativas culturais dominantes.

A Indigenous Reciprocity Initiative é uma das iniciativas que busca tornar essa mudança concreta. Lançada em 2021, a IRI é um programa pioneiro de filantropia decolonial (Banerjee & Shriram, 2022). Nossa missão é acompanhar o fortalecimento das bioculturas e das lutas desses povos pela autodeterminação.

Não existe uma fórmula capaz de resolver os conflitos decorrentes do colonialismo nos territórios indígenas. Mas existem propostas que buscam construir relações mais justas entre o Norte Global e os povos indígenas, fundamentadas no diálogo e no respeito à autonomia indígena. Precisamos de muito mais desses diálogos. Precisamos de protocolos. Precisamos de leis que efetivamente garantam a defesa dos povos indígenas, de seus direitos, de seus territórios e de seus conhecimentos ancestrais.

Não existe uma fórmula capaz de resolver os conflitos decorrentes do colonialismo nos territórios indígenas. Mas existem propostas que buscam construir relações mais justas entre o Norte Global e os povos indígenas, fundamentadas no diálogo e no respeito à autonomia indígena. Precisamos de muito mais desses diálogos. Precisamos de protocolos. Precisamos de leis que efetivamente garantam a defesa dos povos indígenas, de seus direitos, de seus territórios e de seus conhecimentos ancestrais.

Um convite, não uma conclusão

Comecei dizendo que a maioria das pessoas neste movimento nunca conheceu uma liderança mazateca. Encerro dizendo que isso pode mudar, mas somente nos nossos termos - e isso, por si só, é um desafio para nós, pois precisamos discutir a questão da legitimidade tanto dentro quanto fora do território.

A luta contra as tentativas de monopolizar a narrativa sobre os povos indígenas e suas plantas sagradas ainda não terminou. Essas plantas e cogumelos, assim como essas histórias, não pertencem ao mundo ocidental. Eles pertencem aos povos que os protegeram ao longo de séculos de pressões para que fossem esquecidos.

Se reciprocidade significa alguma coisa, significa que os povos indígenas devem liderar a conversa sobre o seu próprio futuro, e não serem colocados apenas como sua fonte de inspiração.

Referências:

Banerjee, S., & Shriram, U. (2022, September 6). Decolonising philanthropy: From conceptual apprehension to functional progress. Alliance Magazine. https://www.alliancemagazine.org/feature/decolonising-philanthropy-from-conceptual-apprehension-to-functional-progress/

Boege, E. (2008). El patrimonio biocultural de los pueblos indígenas de México: Hacia la conservación in situ de la biodiversidad y agrodiversidad en los territorios indígenas. Instituto Nacional de Antropología e Historia; Comisión Nacional para el Desarrollo de los Pueblos Indígenas. https://patrimoniobiocultural.com/archivos/publicaciones/libros/El_patrimonio_biocultural.pdf

Chacruna Institute. (n.d.). Examining the discursive role of María Sabina in modern psychedelic therapy. Chacruna Chronicles. https://chacruna.net/examining-the-discursive-role-of-maria-sabina-in-modern-psychedelic-therapy/

Cohen, I. G., & Marks, M. (2026, April 18). A new executive order on psychedelics: Q&A with I. Glenn Cohen and Mason Marks. Petrie-Flom Center. https://petrieflom.law.harvard.edu/2026/04/18/a-new-executive-order-on-psychedelics-q-a-with-i-glenn-cohen-and-mason-marks/

Dussel, E. (1995). The invention of the Americas: Eclipse of "the other" and the myth of modernity (M. D. Barber, Trans.). Continuum.

Garcia Cerqueda, O. (2014). Huautla: tierra de magia, de hongos... y hippies. 1960 - 1975. Benemérita Universidad Autónoma de Puebla.

Smith, L. T. (2012). Decolonizing methodologies: Research and Indigenous peoples (2nd ed.). Zed Books.

Tuck, E., & Yang, K. W. (2012). Decolonization is not a metaphor. Decolonization: Indigeneity, Education & Society, 1(1), 1–40.

Platero, L. (2026). “Indigenous Reciprocity Amid Contemporary International Shamanic Networks .” In Psychedelic Intersections: 2025 Conference Anthology, edited by Jeffrey Breau and Paul Gillis-Smith. Center for the Study of World Religions, Harvard Divinity School. © License: CC BY-NC. https://cswr.hds.harvard.edu/publications/psychedelic-intersections/2025/Platero

Mais referências sobre reciprocidade:

Chacruna’s Chronicles on Reciprocity - https://chacruna.net/browse-resources/

IRI’s Recommended Readings on Reciprocity - https://www.chacruna-iri.org/recommended-resources


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"10 years of Chacruna Institute for Psychedelic Plant Medicines"

Tradução: Paulina Valamiel, Ph.D.

Capa de Mulinga.


Osiris García Cerqueda, Ph.D

O Dr. Osiris García Cerqueda é historiador e sociólogo indígena mazateco de Huautla de Jiménez, Oaxaca, México. Desde muito jovem ele se dedicou ao estudo da história de sua comunidade e à prática do ritual ancestral com cogumelos psilocybe, que fizeram Maria Sabina ser conhecida. Nos últimos anos, a reciprocidade e a justiça restaurativa têm sido a base de seu trabalho, realizando avaliações das necessidades em sua comunidade e desenvolvendo atividades para fortalecer a biocultura Mazateca. Ele é autor do livro Huautla: tierra de magia, de hongos y hippies (2014) e da revista independente Mirador Mazateco (2010–2015). Osiris busca conscientizar o público sobre o impacto do Norte Global e da nova onda do renascimento psicodélico sobre o povo mazateco. Ele é Coordenador da Iniciativa de Reciprocidade Indígena das Américas (IRI) do Instituto Chacruna.

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