Chacruna + SOS Ayahuasca: Uma agenda global para pensar sobre os próximos 100 anos do Banisteriopsis caapi
19 a 22 de agosto de 2026
Online e Presencial
De 19 a 22 de Agosto o Instituto SOS Ayahuasca realiza o Congresso Internacional Banisteriopsis spp. 2026 (CIB 2026), encontro dedicado à pesquisa, conservação e valorização dessa espécie que compõem a Ayahuasca e aos conhecimentos bioculturais associados a ela. Se o mundo inteiro fala sobre a Ayahuasca, quem está olhando para as espécies que tornam sua existência possível?
É a partir dessa pergunta que o CIB 2026 propõe um deslocamento de perspectiva. Em vez de partir da bebida, o congresso volta o olhar para as plantas: sua biologia, diversidade genética, ecologia, ciclos de desenvolvimento, formas de cultivo e conservação, além dos conhecimentos tradicionais construídos ao longo de gerações por povos originários e comunidades que mantêm essas espécies vivas.
O foco central desta edição é o Banisteriopsis spp. conhecido em diferentes tradições como jagube ou mariri, compreendido não apenas como um dos componentes da Ayahuasca, mas como uma espécie vegetal de importância ecológica, científica e cultural própria. O congresso parte de uma preocupação concreta: o crescimento da demanda global pela ayahuasca ocorre em um contexto de pressão sobre os habitats naturais, exploração de matrizes nativas, perda de diversidade genética e crescente necessidade de estratégias responsáveis de cultivo e conservação. A questão que se coloca, portanto, não é apenas como a Ayahuasca se expande pelo mundo, mas como as espécies que a sustentam poderão continuar existindo e sendo transmitidas às próximas gerações.
Para isso, o CIB 2026 reúne diferentes campos de conhecimento e experiências, aproximando comunidade científica e acadêmica, pesquisadores, povos originários, cultivadores, representantes da legislação e sociedade civil.
Ao longo da programação, serão discutidos temas como taxonomia, fenologia, variabilidade genética, ecologia, conservação de germoplasma, cultivo e manejo, além das dimensões culturais e bioculturais relacionadas às plantas. O encontro também propõe uma questão fundamental sobre o futuro: quem assume a responsabilidade pela conservação das espécies que sustentam uma tradição hoje presente em diferentes partes do mundo?
O CIB 2026 pretende criar um espaço de articulação entre diferentes atores, reconhecendo que a conservação dessas espécies exige diálogo entre ciência, conhecimentos tradicionais, comunidades indígenas, cultivadores, instituições e políticas públicas.
O encerramento do congresso contará ainda com uma participação especial do Instituto Chacruna, em um encontro dedicado à construção de perspectivas internacionais para a conservação das espécies da ayahuasca. A proposta é ampliar o diálogo para além das fronteiras brasileiras e discutir como diferentes organizações, pesquisadores e comunidades podem colaborar na construção de uma agenda de longo prazo para essas plantas.
O CIB 2026 nasce, assim, de uma provocação simples, mas urgente: antes da Ayahuasca, existem as espécies. Conhecer profundamente essas plantas é também assumir responsabilidade pelo futuro delas.
O Congresso Internacional Banisteriopsis spp. 2026 pretende ser um ponto de encontro entre diferentes saberes e, sobretudo, um ponto de partida para ações concretas de pesquisa, conservação e proteção da biodiversidade e dos conhecimentos associados às plantas que sustentam essa tradição ancestral.
Participação do Chacruna Institute no Congresso Internacional Banisteriopsis caapi 2026:
Antes da Ayahuasca, existem as espécies que a compõem
✷ Apresentações ✷
✦︎ Entre Florestas e Mercados: disputas e negociações na circulação da ayahuasca ✦︎
Henrique Fernandes Antunes
Resumo: A circulação global da ayahuasca tem produzido novas alianças, formas de conservação e possibilidades de reconhecimento, mas também disputas em torno de apropriação, comercialização, legitimidade e autenticidade. A partir das tensões que emergem nesse processo, a apresentação examina como a ayahuasca, ao atravessar diferentes contextos culturais, religiosos e econômicos, transforma práticas, relações e sentidos. Em vez de opor simplesmente tradição e mercado, ou conservação e exploração, interessa compreender as disputas e negociações que acompanham sua circulação e os diferentes projetos de futuro que se articulam em torno da ayahuasca.
✦︎ Aproximações entre Santo Daime e ambientalismo no horizonte da globalização da ayahuasca: o caso de Portugal ✦︎
Paulina Valamiel
Resumo: A expansão global da ayahuasca tem produzido aproximações entre práticas religiosas, discursos de conservação ambiental e diferentes formas de relação com a natureza. Partindo do caso do Santo Daime em Portugal, esta apresentação discute como elementos do ambientalismo são mobilizados no processo de inserção e legitimação da religião daimista em um novo contexto social e cultural. A partir da noção de ecologicidade, compreendida como uma característica estrutural do Santo Daime, analiso como a relação entre religião e natureza se articula aos fluxos transnacionais da ayahuasca. Com base em pesquisas realizadas no Brasil e em Portugal, por meio de observação participante e entrevistas com praticantes, a apresentação busca compreender as afinidades, negociações e deslocamentos produzidos no encontro entre o Santo Daime e o ambientalismo, evidenciando como discursos sobre natureza, conservação e sustentabilidade podem participar da expansão global de uma religião de origem amazônica.
✦︎ Cultivos Resilientes: Adaptação do Banisteriopsis caapi e Psychotria viridis na Mata Atlântica ✦︎
Virgilio Bomfim
Resumo: Esta apresentação reúne uma experiência de longo prazo com estratégias de cultivo resiliente desenvolvidas em Pernambuco desde 1997, tendo como eixo a adaptação das plantas às condições ecológicas e o aprimoramento de sistemas de manejo. Como estudo de caso, será apresentada a trajetória da Sociedade panteísta Ayahuasca, autossubsistente desde 2000. A apresentação terá como foco a documentação continuada dos processos de reprodução, desenvolvimento e adaptação das plantas no bioma da Mata Atlântica, construída a partir da observação direta, cultivo, registro fotográfico e acompanhamento sistemático. Um aspecto central das nossas técnicas de manejo é o desenvolvimento de abordagens que favoreçam a resiliência dos cultivos e sua adaptação às variações ambientais. Essas práticas se constituem a partir da observação dos ciclos sazonais, na compreensão das relações entre planta, solo, clima e topografia. Buscamos contribuir para o intercâmbio de conhecimentos sobre conservação e sustentabilidade, destacando a importância do manejo e da construção de práticas adaptadas às realidades ecológicas regionais.
✦︎ Religiões ayahuasqueiras e ambientalismo: análise das práticas sob a perspectiva da sustentabilidade ✦︎
Igor Antunes
Resumo: Nesta apresentação analisará as relações entre as religiões ayahuasqueiras e o ambientalismo, observando as práticas dos grupos sob a perspectiva da sustentabilidade. Através de análise bibliográfica e trabalho etnográfico em organizações localizadas nas regiões Norte, Sudeste e Sul do Brasil, foram examinados elementos relacionados à atuação desses grupos nos ambientes em que estão inseridos, considerando seus esforços de conservação e preservação ambiental e os impactos socioambientais positivos decorrentes dessa atuação. Também abordará as legislações ambientais que regulamentam as atividades extrativistas dos grupos na região Norte do país. Ademais, tratará da cosmologia ayahuasqueira, com destaque para o valor de sacralidade atribuído aos elementos naturais e sua influência nas práticas dos grupos. Em contrapartida, também irá relatar impactos ambientais negativos em parte dessas atividades, evidenciando a dualidade e complexidade da interação desses atores com o movimento ambientalista.
✦︎ Moderação: Bia Labate ✦︎
✷ Organização ✷
✷ Apoio ✷
✷ Participantes ✷
Bia Labate
Bia Labate é antropóloga, educadora, autora, palestrante e ativista brasileira radicada em San Francisco, EUA. Doutora em Antropologia Social pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), atua nas áreas de substâncias psicoativas, política de drogas, xamanismo, rituais, religiões e justiça social, com um forte compromisso com a proteção de plantas sagradas e a amplificação das vozes de comunidades marginalizadas no campo da ciência psicodélica. É Diretora Executiva do Instituto Chacruna de Plantas Psicodélicas Medicinais, onde também coordena a extensão internacional Chacruna Latinoamérica. Atua como Assessora Senior de Cultura e Estratégia na Associação Multidisciplinar de Estudos Psicodélicos (MAPS), e como Professora Visitante do Centro de Estudos Superiores em Teologia em Berkeley. Além disso, é consultora de cerca de 15 organizações, entre elas, o Projeto Corações Heroicos (Heroic Hearts Project), a Aliança de Plantas Sagradas (SPA) e o Conselho de Conscientização sobre Enteógenos do Alasca. Uma das fundadoras do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos (NEIP), no Brasil, é também editora de seu site. Desde 1996, tem uma trajetória pessoal e acadêmica profundamente marcada pelas suas experiências com a ayahuasca. É autora, coautora e coeditora de 29 livros, três edições especiais e inúmeros artigos em periódicos acadêmicos e publicações online. Mais informações em: https://bialabate.net.
Henrique Fernandes Antunes
Henrique Fernandes Antunes possui doutorado em antropologia pela Universidade de São Paulo (2019) e realizou pesquisas como acadêmico visitante na UC Berkeley. Obteve seu mestrado na mesma instituição em 2012 e graduação em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de São Paulo (UNESP-FFC) em 2008. Seu trabalho pós-doutoral inclui cargos na EHESS no Centre d’Étude des Mouvements Sociaux (CEMS), no Departamento de Estudos Clássicos e Religiosos da Universidade de Ottawa e no Programa Pós-Doutoral Internacional do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP). O Dr. Antunes integra o grupo de pesquisa Religião no Mundo Contemporâneo do CEBRAP e é Coordenador de Pesquisa no Instituto Chacruna para Plantas Medicinais Psicodélicas. Além disso, ele é pesquisador do Grupo Interdisciplinar de Estudos Psicoativos (NEIP) e é Flourish Fellow no Centro para a Ciência dos Psicodélicos da UC Berkeley (BCSP). Sua pesquisa aprofunda a regulamentação da Ayahuasca tanto no Brasil quanto globalmente.
Paulina Valamiel
Paulina Valamiel é socióloga da religião, pesquisadora e educadora. Atua como Research and Communications Officer no Chacruna Institute for Psychedelic Plant Medicines. Paulina é doutora em Sociologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (PPGS/UFMG) e autora de diversos artigos acadêmicos, capítulos de livro e textos online sobre o Santo Daime, com foco nas dinâmicas transnacionais da ayahuasca, gênero e sexualidade. Como pesquisadora afiliada à Universidade Federal do ABC (UFABC), atualmente desenvolve um projeto sobre mulheres e espiritualidades psicodélicas a partir de perspectivas do Sul Global. Também é pesquisadora associada ao Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos (NEIP) e integrante do grupo de pesquisa ReGeSex (UFJF). Além disso, é cofundadora da Hijas del Sur - Rede Latinoamericana de Mulheres Psicodélicas.
Virgilio Bomfim
Virgilio Bomfim é doutor em Antropologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE, Brasil) e foi pesquisador visitante no Departamento de Antropologia Social da Universidade de St. Andrews (Escócia). Historiador formado pela UFPE e pela Universidade de Santiago de Compostela (USC, Espanha), é também ativista e fundador de associações socioambientais na Amazônia. Sua pesquisa abrange temas como etno- história indígena, etnicidade, xamanismo e as relações entre humanos e plantas. Seu trabalho com os povos indígenas tem se refletido em publicações interdisciplinares, livros, documentários e conferências internacionais no Brasil, China, México, Áustria e Espanha.
Igor Antunes
Igor Antunes é gestor ambiental, mestre em Sustentabilidade e doutorando em Ciência Ambiental pela Universidade de São Paulo. Tem como temas de pesquisa a sustentabilidade e a regulamentação do uso da ayahuasca por povos indígenas e grupos religiosos no Brasil, com foco nas técnicas de manejo florestal e na produção de políticas públicas em seus diversos âmbitos.